Imprimir

A obra deveria estar pronta há dois anos

Alunos e professores aguardam, há aproximadamente dez meses, a retomada da obra para a construção da nova sede da Escola Estadual Francisco Pires Machado. Um espaço mais amplo está sendo construído em terreno ao do imóvel onde hoje funciona o estabelecimento de ensino. Os donos da empresa Valor Construtora, responsável pelo serviço, foram presos por desvio de dinheiro público. Desde então, a obra está  abandonada.

A obra teve início em 2013, com previsão de término para 2014. Atualmente, materiais de construção, como canos de PVC, tijolos e cimento, ainda se encontram no terreno, junto a duas máquinas, capacetes, luvas e projetos.

A quadra é dividida com outras instituições de ensino, como o CMEI Augusto Canto e o Colégio Municipal do bairro, além do Posto de Saúde Dr. José Carlos e o Centro do Idoso. Com a reforma, a escola, que hoje tem o problema de falta de espaço, superlotação e instalações em estado precário, passaria a contar com 16 salas.

Segundo funcionários da escola, o local se tornou um ponto tráfico de droga. Além disso, desde quando a obra foi abandonada pela empreiteira, tem ocorrido roubos do material de construção.

 “Era um campo de futebol, agora é ponto de vandalismo”, conta Paulo Alves, que é o secretário da escola há dez anos. Ele explica que o colégio possui apenas seis salas para atender, aproximadamente, 500 estudantes divididos no período da manhã, tarde e noite. Mais de 100 alunos estão na lista de espera.

 Algumas salas foram improvisadas a partir de espaços destinados a outras atividades, como a biblioteca antiga e o saguão. Este último foi dividido entre sala de aula e sala dos professores.  “Não aceitamos mais alunos pela limitação do espaço físico”, enfatiza Alves.

A demora no término da construção afeta na segurança e o funcionamento da escola pelos problemas na infraestrutura. Além do número insuficiente de salas, não há refeitório e, por isso, os alunos comem em pé pela quadra e pátio.

Sônia Maria, diretora há 14 anos da escola, afirma que tem muita pedra e caco de telha pela obra e, com frequência, pessoas não identificadas vão até o local da construção e  atiram pedaços de materiais no telhado. “Tira a nossa tranquilidade e quando chamamos a patrulha, os vândalos se escondem na construção”, diz Maria. 

Antes do abandono, falta de funcionário já teria provocado atraso na obra

Antes de ser abandonada pela empreiteira, a construção estava sendo encaminhada com qualidade na prestação do serviço, embora estivesse lenta. É o que afirma a chefe do Núcleo Regional de Educação (NRE), Isabel Vieira. Ela explica que, no entanto, a empresa não cumpriu o prazo com a prefeitura e acabou estourando o convênio.

“O que chamava a atenção era a pouca quantidade de pessoas trabalhando e óbvio que isso atrasava a obra”, realça. Após uma reunião realizada no dia 24 de abril de 2015, foi acordado, como descreve a chefe do NRE, que a obra não poderia passar de dezembro. Dessa forma, mais 100 pessoas foram contratadas como mão de obra.

A foto mostra uma pilha de materias que seriam utilizados para a construção da obra

O material para a construção permance no local desde o abandono da obra

“Eu estou tranquila, sempre acompanhei. Aqui, em Ponta Grossa, não foi roubado dinheiro”, enfatiza Vieira. Ela acredita que o esquema de corrupção se aplica a outras escolas do Paraná e afirma, com convicção, que todo o dinheiro destinado à obra está em segurança.

“O problema aqui não foi pegar dinheiro, foi perder tempo”, garante Vieira. “Licitação é isso. De repente, se descobre que é uma empresa terrível e que sempre arruma desculpa, como mão de obra, para dilatar o prazo”, afirma.

Vieira conta que a prefeitura tem responsabilidade com o projeto de construção da nova sede, pois foi feito parceria entre o Estado e Município para essa licitação da obra. Para a retomada, é necessário, no entanto, abrir uma licitação para que outra empresa possa continuar o serviço. Além disso, Vieira explica que há uma espécie de débito com a empresa Valor Construtora, pois a construção teve início sem o repasse de alguns valores.

A ideia inicial era que o espaço onde se concentra a Escoa Estadual Francisco Pires Machado fosse utilizado para outro fim. De acordo com Isabel, ele seria usado para ampliação da estrutura da Escola Municipal Deodoro Alves Quintiliano. Desse modo, os dois colégios teriam uma boa infraestrutura para seus alunos e funcionários, pois não dividiriam mais espaço.

A demora da finalização da construção prejudica em tudo, afirma Vieira. “Pra se ter ensino e aprendizagem tem que começar pela infraestrutura, a qualidade está casada com a estrutura”, enfatiza.

Operação Quadro Negro

A empreiteira recebeu, para ampliação da escola, R$ 4 milhões. No entanto, a obra foi abandonada em meados de agosto de 2015. A engenheira do Núcleo, Letícia de Oliveira, explica que acompanhou toda a construção, atestando a qualidade da obra com frequência. 

Como a equipe do Portal Comunitário não conseguiu contato com os advogados, foi realizada uma busca de informações já divulgadas, como as reportagens da Gazeta do Povo e investigações divulgadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público.

objetivo foi compreender a situação em que a empreiteira se encontra. A empresa Valor Construtora e Serviços Ambientais LTDA possui obras em todo o Estado do Paraná. Ao todo, são 12 contratos de reformas ou construção de escolas.

Pessoas ligadas à equipe da construtora foram presas no segundo semestre de 2015 e, então, a construção da nova sede foi abandona. A obra, cuja previsão de término era no prazo de dois anos, estava, na ocasião, com atraso de um ano.

O dono Eduardo Lopes e a técnica Viviane Lopes de Souza estão entre os presos. Da Secretaria de Estado da Educação (Seed) do Paraná, foi preso o diretor de engenharia, projetos e orçamentos, Maurício Fanini. De 2011 a 2014, ele teria recebido propina para facilitar o recebimento de dinheiro pela empreiteira.

A obra da escola de Ponta Grossa, que foi abandonada após a prisão dos donos durante a operação Quadro Negro, estava com 35,31% concluídos. A chefe do Núcleo Regional de Educação (NRE), Isabel Vieira, conta que os empregados chegaram a afirmar que continuariam a obra, mas acabaram largando o serviço.     

A Operação Quadro Negro é uma iniciativa para investigar a lavagem de dinheiro público em contratos para reformas e construções de escolas.estaduais.  A operação investiga as fraudes na fiscalização, pois é a partir delas que as empreiteiras conseguem vantagens financeiras, pagando propinas e superfaturando contratos.

Segundo Gaeco, a Valor também operação com esse esquema de fraude. A empresa recebia a visita do fiscal do estado para vistoriar o serviço e este elaborava um relatório atestando medições maiores do que efetivamente haviam sido feitas. A partir do relatório, o governo autorizava a liberação de dinheiro.

a foto mostra a quadra do colégio estadual alagada

As escolas municipal e estadual são separadas por um ginásio

Em entrevista com o portal Rádio Voz do Sudoeste, em janeiro de 2016, a  ex-advogada da Valor, Úrsulla Andrea Ramos, informou que os recursos abasteceram a campanha política do Paraná, em 2014. Úrsulla também relatou que o dinheiro pago a mais também servia para que a empresa ganhasse novas licitações e que os donos da empreiteira, com frequência, faziam saques de algo valor que chegaram a R$ 200 mil. 

Atualmente, o advogado da empresa é Claudio Dalledone Junior. Especialista em direito criminal, ele atua em escritório cuja sede está em Curitiba.

O Portal Comunitário não obteve resposta de ambos os advogados ao tentar constatá-los para uma entrevista. A Prefeitura de Ponta Grossa também não retornou o contato feito para verificar a previsão de término da obra e prazo estipulado para a transferência da Escola Estadual Francisco Pires Machado para a nova sede. O contato foi realizado através de ligações telefônicas.

A comunidade como membro ativo no bairro

Augusto Nunes, membro da comunidade do bairro Cará-Cará, conta que moradores tentaram avisar autoridades em momentos em que houve roubo dos materiais de construção para a obra da escola. No entanto, nada adiantou. “Só vão fazer alguma coisa quando existir alguma tragédia, vítima”, afirma.  

O secretário José Lourenço, funcionário há 15 anos da escola, explica que é difícil fazer uma cobrança de providência, uma vez que, no espaço da Escola Estadual Francisco Pires Machado, também funciona uma escola municipal e estadual.

“Ligamos esses dias para a Guarda Municipal e disseram que era responsabilidade do estado. Então, cobramos o Núcleo. É tudo vontade política”, relata Lourenço.

A imagem demostra o ginásio alagado

A estrutura da escola não suporta chuva e nem quantidade de alunos

A diretora da escola diretora, Sônia Maria, conta que já tentou de tudo, inclusive uma reunião com os pais, mas não deu certo. Ela relata que nem chegou a acreditar quando a nova escola começou a ser construída. “Eu saía de lá emocionada, estava tão bonito e de repente para”, lamenta.

Enquanto a diretora afirma ter feito até mais do que podia para resolver a situação e deixa claro que só tapar o sol com a peneira não adianta. "Apenas quem está no cotidiano sabe como é difícil".

O terreno abandonado da construção é local de outros problemas, como a propagação do mosquito da dengue a partir de água parada. É possível perceber a depredação do que já foi construído e o péssimo cheiro pelo acúmulo de lixo.

A diretora afirma que o local virou a "casa do zé ninguém" e questiona a razão pela qual somente no segundo semestre o estado promete tomar providência. “Se eu tivesse com o dinheiro, a escola já estaria pronta”, enfatiza. 

Arquivo:
03/03/2016 - Obras paradas no bairro Cará-Cará prejudicam demanda escolar para o ano letivo de 2016

 

Salvar

Salvar

Salvar

Categoria: Cará-Cará
Acessos: 1642