A crença popular em São João Maria faz parte da vida dos moradores da cidade de Ponta Grossa desde a segunda metade do século XIX. Um exemplo de catolicismo popular e lenda urbana.

Um dos pontos turísticos de Ponta Grossa, o Olho D'água São João Maria está localizado na Vila Ana Rita e reúne cerca de 100 visitantes por semana, segundo informações de Palmira Soares, responsável pela vigilância do local.

Esse é um exemplo de catolicismo popular difundido na região desde o final do século XIX e início do século XX através da trajetória de monges sagrados.

“A presença de monges foi muito comum aqui nos Campos Gerais, e seus traços ainda são muito fortes na crença das pessoas, especialmente das classes populares”, comenta a professora de história da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Solange Ramos de Andrade, que realiza pesquisas sobre a história cultural das religiões.

A lenda do santo milagreiro conta que o monge João Maria peregrinava pelo interior do Paraná e chegou em Ponta Grossa para pregar suas palavras. Certa vez, ele foi atormentado por crianças que passavam por perto, despertando sua fúria.

As mães sairam em defesa de seus filhos, o que causou ainda mais indignação no monge, dizendo em altos brados: “Terra de gente ruim, um dia, quando as casas forem muito altas, o vento será tão forte que irá derrubar tudo, não deixando nada em pé. Vocês haverão de ver”.

E logo depois houve uma grande tormenta de vento, pedras e chuva, que destruiu tudo. Entretanto essa tormenta não atingiu o monge, que estava sentado debaixo de uma árvore, no local onde hoje é o “Olho d’água São João Maria”. Depois, o monge sumiu e ninguém mais soube de seu paradeiro.

 

“Agradeço pela graça recebida do São João Maria”

A crença popular em São João Maria faz parte da vida dos moradores da cidade de Ponta Grossa desde a segunda metade do século XIX, quando João Maria de Jesus – hoje chamado de monge – passou pelos Campos Gerais.

Os fieis acreditam que o monge concede milagres e graças a quem bebe da água do olho d'água. Moradora do local, Roseli Feliciano conta que pessoas de todos os tipos visitam o olho d'água para agradecer e pedir graças ao monge.

“Nos fins de semana, as pessoas trazem oferendas e até sobem as escadas de joelhos para agradecer o que conseguiram por intermédio do João Maria”, conta.

Em torno do olho d'água, os fieis deixam os mais variados tipos de objetos. Existem aproximadamente 600 objetos religiosos, entre estatuetas de santos, fotos e quadros com imagens de Jesus e do Monge.

Objetos curiosos como tipoias, bengalas, talas ortopédicas, terços, bíblias e até mesmo boletos bancários são deixados no local. Fotos de pessoas com a Carteira Nacional de Habilitação também são muito comuns por lá, além de agradecimentos pelas graças recebidas do Monge João Maria pela cura de doenças. Há até mesmo o agradecimento de um acadêmico de medicina da UEPG por ter passado no vestibular no ano de 2010.

“Na minha família, a tradição era de que todos fossem batizados com as águas abençoadas do monge”, relata a fiel Taís Maria Ferreira (51).

Antigamente, usava-se a água não só para limpar a casa e purificá-la de coisas ruins, mas também para beber. Uma forma de benzer o corpo contra os maus espíritos”, explica o aposentado Artur Tamenhainn, de 83 anos.

De acordo com pesquisa realizada pelos professores Karina Janz Woitowicz e Sérgio Luiz Gadini, São João Maria percorreu a Região Sul do país dentre os períodos da Guerra do Contestado, Guerra dos Farrapos e Revolução Federalista e parou em Ponta Grossa em algum momento da história, onde nasceu o Olho d'Água que leva o seu nome.


Milagre x Ciência: os perigos de contaminação pela água milagrosa

Parte dos problemas decorrentes do esgoto a céu aberto estão concentrados na contaminação de lençois freáticos e fontes próximas, como é o caso do Olho d'água São João Maria. Os resíduos do esgoto são lançados no Arroio Pilão de Pedra, que integra a fonte de onde se origina a água milagrosa do São João Maria.

Segundo o professor de microbiologia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Marcos Pileggi, a bactéria mais provavél de encontrar em ambientes como esse é a Escherichia Coli.

Esta bactéria pode habitar o intestino humano de forma natural sem causar problemas. Ela até colabora com o funcionamento correto do trato digestivo, atuando no processo de absorção dos nutrientes. Todavia quando ela ultrapassa um limite pré estabelecido pelo organismo, resulta em doenças e infecções intestinais.

"Diarréia com sangue é a principal característica da infestação dessa bactéria no intestino e, em outros casos, infecções nos rins e bexiga, levando à desidratação e anemia”, exclarece a microbiologista Laura Cogo.

De acordo com ela, no caso do Olho d'água, para o líquido ser ingerido são necessárias algumas medidas profiláticas, como ferver e purificar a água.

Marcos Pileggi explica que essa é uma das medidas que podem fazer com que a água seja consumida. Porém estudos mais aprofundados devem ser realizados no ambiente verificar se a água realmente serve para consumo humano, uma vez que ela está exposta a vários fatores de contaminação.

InfograficoOlho03-05-2013

Olho203-05-2013

Arquivo Comunitário:

28/05/2013 : Esgoto a céu aberto contamina a vida de moradores da Vila Vilela e região