Crditos Nathlia  Oliveira

Segundo dados da Anvisa, desde 2011 o consumo de agrotóxicos no mundo cresceu. E o país que o ocupa o primeiro lugar da lista é o Brasil, por cinco anos consecutivos.  O Paraná é o terceiro estado brasileiro que mais utiliza defensivos agrícolas. Segundo pesquisa feita pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, nos últimos anos, a região movimentou cerca de U$1,35 bilhão no setor de agrotóxicos.


Para o engenheiro agrônomo e coordenador do Programa de Defesa do Alimento Seguro da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, João Miguel Tosato, isso se deve, principalmente, pelo aumento do número excessivo dos agrotóxicos, por vezes desnecessários, para gerar mais lucro ao agrônomo e agricultor. “Muitas vezes, um agrônomo emite uma receita fria, sem fazer um diagnóstico no campo, apenas para legalizar a venda”, afirma Tosato.


Já houve, segundo o engenheiro, uma baixa de 22% no consumo de veneno no Paraná, desde 2013. Um dos fatores que contribuiu para esse aumento foi o trabalho na fiscalização, tanto no campo, quanto nas entidades agrônomas. De acordo com Tosato, “reduz muito o uso de agrotóxicos se tiver um monitoramento na lavoura e um acompanhamento do agrônomo na propriedade agrícola”.


Em Ponta Grossa, a Secretaria do Meio Ambiente desenvolve, junto à Associação dos Revendedores de Insumos Agropecuários dos Campos Gerais (Assocampos), uma parceria de conscientização do uso dos agrotóxicos. A empresa é responsável pelo recolhimento das embalagens de produtos tóxicos ao meio ambiente na cidade de Ponta Grossa e região.


De acordo com a Lei nº 9.974/2000 é de responsabilidade do agricultor fazer a tríplice lavagem da embalagem, armazenar em local correto e devolver nos locais indicados, que são as próprias indústrias fabricantes dos produtos. A média nacional de retorno das embalagens vazias é de 94%.


Também visando o controle de venenos, existe o Sistema de Monitoramento do Comércio e Uso de Agrotóxicos do Estado do Paraná (SIAGRO). “Se um agricultor paranaense comprar de uma empresa de outro estado, ele precisa  lançar a receita agronômica e os dados para a venda neste sistema”. afirma Tosato. Segundo ele é possível rastrear o comércio e o uso do agrotóxico.


De acordo com a fiscal da Secretaria do Meio Ambiente, Marielly Mika, o uso errado dos agrotóxicos pode ocorrer de diversas formas, como quando se usa uma quantidade além do necessário ou quando o uso ocorre em lavouras que não possuem mata ciliar. “Quando chove, sem dúvida nenhuma, o uso de agrotóxicos pode contaminar rios e lençóis freáticos. Sendo uma quantidade muito grande de agrotóxicos, caiu no solo já polui”, explica Marielly.


Segundo o agricultor, Fabio Moleta, nos últimos anos as próprias empresas de agrotóxicos estão incentivando o uso correto dos produtos, através de palestras promovidas pelas firmas e de eventos voltados ao campo da agricultura. Entretanto, Moleta destaca que ainda falta fiscalização. “A preocupação maior é com o meio ambiente e com a própria saúde do agricultor”, afirma.

Saúde e contaminação da água


Quanto à poluição da água com agrotóxicos, o Ministério da Saúde, na Portaria Nº 2.914 de dezembro de 2011, declara como permitida a presença de 27 tipos de agrotóxicos, 15 produtos químicos inorgânicos, 15 produtos químicos orgânicos e sete produtos químicos secundários da desinfecção domiciliar. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) considera esse alto número de substâncias químicas permitidas uma possibilidade à banalização da contaminação da água.

O engenheiro agrônomo, Yuri Freitas, alerta para o cuidado com o manejo de insumos. “O agrotóxico pode afetar a água, contaminando nascentes e mananciais que abastecem localidades, já que o solo absorve a molécula ao longo da produção”, afirma.  
Segundo amostras coletadas em 2011 pelo Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), da Anvisa, cerca de um terço dos alimentos produzidos e consumidos pela população brasileira está contaminado por agrotóxicos.

Para a Prof. Dra. de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Lara Tschopoko, os malefícios causados por estas substâncias são bastante significativos e podem gerar um estado de intoxicações agudas, subagudas e crônicas, acarretando danos irreversíveis do tipo paralisias, lesões hepáticas, renais, insuficiência respiratória, neoplasias e morte.

Os agrotóxicos são preocupação também de quem aplica, já que o produto químico pode gerar irritações no local onde o agrotóxico entra em contato com o corpo, ou até problemas mais sérios, como o câncer. Os chamados Equipamentos de Proteção Individual (EPI) incluem luvas, respiradores, viseira facial, jaleco e calça, boné ou touca, avental e botas que ajudam a reduzir a exposição do trabalhador aos riscos de contaminação.

“O problema é que não é todo mundo que usa o equipamento. As pessoas acham que por usarem os insumos há anos não vai causar malefícios à saúde. Mas pelo contrário, ele demora para fazer mal”, explica Marielly.

Agroecologia na luta contra o agrotóxico


A Jornada de Agroecologia no Paraná surgiu com o intuito de auxiliar na construção de um novo paradigma para a agricultura. Segundo a carta da 14º Jornada de Agroecologia, que ocorreu entre 22 e 25 de julho, em Irati, este ano o Estado destinou 159 bilhões para o agronegócio, contra 28 bilhões para a agricultura familiar. Devido a sua larga escala de produção, o alimento com agrotóxico atende mais às demandas consumistas que o produto orgânico. Embora a agroecologia e outras tecnologias ofereçam um alimento saudável e sem agrotóxicos, o mercado ainda opta por àquele que chega mais rápido, em grande quantidade e com um preço menor.

Representante do pré-assentamento Emiliano Zapata, do Movimento Sem Terra (MST), Célio Rodrigues considera esses venenos um malefício para a sociedade já que contaminam trabalhadores e consumidores. “A agroecologia tem se mostrado uma forte saída para resolver os problemas alimentares da população”, completa.

Como uma alternativa ao uso dos agrotóxicos, existe a produção de alimentos orgânicos, que, segundo Lara Tschopoko, cresceu na última década, devido à demanda por alimentos mais seguros e saudáveis. “Para iniciar a produção orgânica, a maioria das propriedades precisa passar por um período de adequação conhecido como período de conversão”, afirma a engenheira alimentar. Durante este tempo, a produção deixa de ser feita de maneira convencional e é construída uma barreira de isolamento para vizinhos não-orgânicos.

O técnico em agropecuária, Marcos Piérre, confirma que “a utilização de agrotóxicos facilita o cultivo de alimentos, produzido em maior escala e com um custo de produção mais barato. Em contra partida, os alimentos orgânicos tem o seu custo elevado devido à dificuldade de conseguir um produto de bom aspecto, mas que seja livre de pragas e doenças”.

Para Rodrigues o princípio da agroecologia é reconstruir as formas de comercialização através de mercados alternativos, feiras livres e merenda escolar (programa oficial do governo). Para que esta prática ocorra, a agroecologia segue a tabela de preços que a Companhia de Agricultura e Abastecimento (Conab) estipula. Os agricultores podem ter um acréscimo de 30% desse valor em cima do alimento.

Lara explica que “como o setor produtivo não oferece produtos na mesma velocidade em que cresce a demanda, é natural haver um sobre-preço no produto em qualquer área que seja regida pelas forças de mercado.” Yuri Freitas lembra que o cultivo de alimentos orgânicos necessita de maior utilização de mão-de-obra e atrapalha na oferta de produto no mercado, já que a produção tem menos rendimento. No caso do agricultor, Fábio Moleta, a soja orgânica ainda é inviável para o bolso do agricultor, pelo grande ataque de pragas.