Ponta Grossa também participou das campanhas de apoio à ditadura. O Núcleo 31 de Março abriga histórias e resquícios da época  na cidade. Nomes de ruas e os moradores que vivem desde a fundação relembram como surgiu a comunidade há 48 anos.

 

Heranças da ditadura militar também deixaram marcas em Ponta Grossa. Em tempos que se (des)comemora os 50 anos do golpe no Brasil, o Núcleo 31 de Março registra até hoje traços, histórias e lembranças referentes à época.

No dia em que foi inaugurado o Núcleo, os principais jornais da cidade estavam lá e não faltou cobertura. “Nação comemora o aniversário da revolução”, dizia a manchete do Diário dos Campos.

A data era simbólica. Assim, o nome para o bairro seria o mesmo da data da ‘revolução’ e da inauguração. Segundo a notícia publicada no Jornal Diário dos Campos, foram construídas mil casas populares no Núcleo, e tudo feito preferencialmente para militares, trabalhadores e ex-pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Dona Rosa Covalski Barreto, uma das primeiras moradoras do Núcleo, lembra que, na época, quem dava a escritura das casas era o exército. “Tinha o escritório de um Major aposentado na entrada do bairro. Pagávamos 700 cruzeiros de mensalidade para os militares”, conta.

Movimento 31 pelo 15
Em 2010, um grupo de professores e universitários de vários cursos da UEPG organizaram o movimento denominado ‘31 pelo 15’. O grupo reivindicava a mudança da data no nome do bairro (31) pela data da redemocratização (15).

“Nos sentíamos incomodados com esses espaços de memória que faziam referência à ditadura militar. O conjunto habitacional foi a maior expressão dessa auto-homenagem no período da ditadura”, afirma o historiador e um dos organizadores do movimento, Thiago Divardim.

Em meio a nomes de cristais e pedras preciosas das ruas, o sargento Carlos Argemiro de Camargo, militar morto em um ataque de guerrilheiros comunistas em 27 de março de 1965, no extremo oeste do Pará, tem seu nome homenageado na rua do 31 de Março. A rua é paralela à principal, onde estão as primeiras casas do núcleo, comércio, escolas e ginásio de esportes.

“Talvez seja uma batalha perdida mudar o nome do bairro, ou das ruas como nomes de militares, mas algo precisa ser feito pra contrabalançar. Eu acho uma falta da solidariedade por parte dos moradores não se conscientizar sobre isso, porque muita gente desapareceu, foi torturada na época”, diz o jornalista e também componente do movimento ‘31 pelo 15’, Ben-Hur Demeneck.

Enquanto os moradores circulam por ruas com nomes de militares, andam de ônibus, com a data do golpe escrita, na entrada do conjunto 31 de Março, há uma praça, ruas estreitas, feitas de paralelepípedos, e uma frase, no alto de uma placa: “Volte sempre, com saúde e saudade”.

Arquivo comunitário
13/04/2010 - Movimento “31 pelo 15” visa mudar o nome do Núcleo Habitacional 31 de Março
01/06/2010 - Representantes do movimento "31 pelo 15" participam de palestra na UEPG