Além da ineficiência do policiamento, moradores identificam carência de planejamento na infraestrutura da região

 

 Desde dezembro, quando as casas do conjunto residencial Costa Rica foram sorteadas e os contemplados tomaram posse dos imóveis, eles começaram a enfrentar problemas nos serviços e até mesmo a inexistência deles. Entre as maiores reclamações, estão a falta de policiamento e serviços básicos, como escolas e postos de saúde, além da carência de telefones públicos, serviço de correio e poucos horários de ônibus.


O Costa Rica é o maior conjunto de casas populares de Ponta Grossa. São 1.127 unidades. Na região, ainda estão os conjuntos Londres, com 457 casas, e Panamá, com 475.

Todas as famílias dos loteamentos da região recorrem aos serviços oferecidos em outros bairros. Isso sobrecarrega, principalmente, o posto de saúde e escolas dos bairros San Martin e Rio Verde.

 

Falta de policiamento e segurança no conjunto residencial

Moradora do bairro em frente à sua casa mostra pedaço de madeira que foi deixado em sua casa por assaltantes
Moradora mostra pedaço de madeira usado em assalto na sua residência, deixado pelos invasores

Uma das reclamações mais frequentes dos moradores é a falta de policiamento. Os moradores se sentem cada vez mais inseguros com o grande número de assaltos na região.

Cíntia Correia começou a morar no Costa Rica no começo de janeiro. Desde então, ela se sente preocupada e amedrontada pelas ocorrências de assaltos no residencial. A moradora conta que sua residência foi assaltada no mês de maio e que, no mesmo dia, outras quatro casas foram invadidas.

A Polícia Militar foi chamada mais de vinte vezes, mas não compareceu ao local. Além disso, a moradora relata que, depois do ocorrido, ela parou de trabalhar como diarista e cozinheira para não deixar a casa desprotegida.  

Cíntia reforça que o assalto a impediu de trabalhar por tamanha insegurança e sentimento de impotência provocado em toda a família. Foram roubados até mesmo cosméticos abertos que estavam no banheiro, fato que surpreendeu a moradora.

“Não levaram minha batedeira, minha sanduicheira e outras coisas porque eles não tinham como levar tantos objetos”. Segundo a moradora, até a mochila de serviço de seu marido foi levada para carregar as coisas roubadas.

Segundo o contrato de compra, a casa não pode ser trocada ou vendida pelo prazo de dez anos. Isso impede que ela possa mudar para outro bairro onde se sinta mais segura.

“A Prolar não quer que venda, que troque ou alugue, mas como vou viver aqui?”, questiona a moradora. Ela garante que na casa onde morava anteriormente, em Oficinas, não sentia tanto medo. “Aqui eu pago R$ 25 na prestação da minha casa, mas o gasto que eu tenho está sendo quase o dobro do que pagaria de aluguel”.

Cíntia conta que a vizinha também foi assaltada e a família desta gastou, aproximadamente, R$ 400 por cada ponto de sensor de alarme, além da mensalidade que fica em torno de R$ 30.

Mesmo com as medidas de segurança tomadas, as vizinhas acreditam que elas não resolvem os problemas de assalto da região. “Serve para chamar a atenção do vizinho”, diz Cíntia. Para ela, assim como a Polícia Militar, o vigia do sistema de monitoramento contratado também não iria verificar o ocorrido, devido aos riscos e à distância.

Além do prejuízo, Cíntia conta que o cachorro que protegia a casa foi agredido a pauladas pelos assaltantes. O cachorro da casa de trás também foi agredido e teve as patas da frente quebradas. Para ela, isso só demonstra a violência dos invasores e o risco que as famílias correm.

Para Cíntia, os assaltantes conhecem a rotina dos moradores. Ela acredita que, na ocasião do assalto a sua casa, alguns vizinhos viram e não impediram a ação, por medo de também sofrerem retaliações. A suspeita de que assaltantes façam parte da comunidade assusta ainda mais os moradores.

Proprietária de um mercadinho e moradora do bairro, Laila Pinheiro relata que as vendas são boas, mas não se sente segura, pois outros comércios já foram assaltados mais de uma vez. “Graças a Deus aqui não entraram, porque não dá nem para deixar um chinelo para fora, pois eles levam”.

Geraldo Lopes é proprietário de uma loja de materiais de construção. Diferente das mercearias do bairro, que ficam nas casas, o estabelecimento dele fica em um terreno comercial. Lotes, como o de Geraldo, são vendidos pela Prolar, com o objetivo de aumentar o comércio legal na região.

Geraldo conta que sua loja não foi assaltada, mas que convive com a insegurança. “Na verdade, não fomos assaltados, mas os vizinhos são assaltados sempre”, reforça.

Outro proprietário de um pequeno mercado no bairro é Evaldo Pereira, conhecido pelos moradores como “Polaco”. Ouvindo as reclamações dos vizinhos, Polaco decidiu colocar grades e alarme na casa. “Foi um gasto que não estava no meu orçamento, mas foi necessário”, afirma.

Em maio deste ano, o Governo do Estado nomeou, para cidades dos Campos Gerais, 229 novos policiais militares. A contratação foi feita por meio do programa Paraná Seguro, segundo o site da PM. Durante a reportagem, a equipe do Portal Comunitário tentou contato, por telefone, com o 1º Batalhão de Polícia Militar de Ponta Grossa para obter um posicionamento sobre a reclamação dos moradores. No entanto, não houve resposta.

Problemas na prestação de serviços básicosA imagem mostra casas do programa minha casa minha vida, ao fundo é possível avistar prédios e casas do Centro da cidade
Além da distância do Centro da cidade, serviços básicos como correios e telefone públicos não existem no local

No caso das escolas, a situação se agrava. A escola municipal mais próxima é a Aldo Bonde, que fica no San Martin. A instituição atende os alunos dos conjuntos residenciais Londres, Panamá e Costa Rica e está em reforma.

Outra reclamação frequente é a distância do posto de saúde indicado pela Prefeitura para atendimento dos moradores do conjunto residencial. A unidade de saúde fica no San Martin. Mesmo estando localizado em uma vila vizinha, o posto não é perto e tem a demanda muito alta, já que atende as pessoas dos residenciais Londres e Panamá, além do Costa Rica.

Sílvia Ferreira pegou as chaves em dezembro de 2015. Ela é mãe de duas crianças, uma delas estuda na Aldo Bonde. Ao contrário dos outros estabelecimentos que são em horário integral, a escola funciona em turnos por conta do grande número de alunos. “No começo, eu tinha que levar e buscar em dois horários; era bem difícil”.

Agora, segundo a moradora, a prefeitura disponibilizou um ônibus para levar as crianças até a escola municipal, que é distante do residencial Costa Rica. No entanto, o ônibus da prefeitura não comporta todas as crianças, fazendo com que alguns pais arquem com custos do transporte por ônibus público ou vans particulares. Alguns pais sequer matricularam os filhos na escola.

A moradora Rafaela Soares cuida do irmão de 2 anos para sua mãe poder trabalhar. Por conta da distância da creche e da falta de vagas, ela fica em casa cuidando da criança. “Até procuramos a creche, mas não tinha vaga.”

Sílvia já utilizou o posto de saúde do San Martin, mas afirma que o atendimento demorou. “Ouvi um boato aqui na vila de que vão fazer um posto”. Em caso de uma emergência, os moradores têm que se locomover até o Centro. “O posto é um dos principais problemas, a gente fica doente e é muito longe para ir, tem que ir pela linha do trem se arriscando”, completa.

Laila Pinheiro é outra moradora da região que reclama da falta de um posto de saúde mais perto. A demora para marcar as consultas já foi vivida por ela. “Eu fui marcar uma consulta no dia 20 de maio e eles marcaram para o dia 8 do mês seguinte”. Laila critica a demora para marcar as consultas. “Se for uma emergência tem que adivinhar que vai ficar doente antes, para conseguir”, afirma.

Outra reclamação frequente dos moradores é a falta de serviço de correio e a não existência de telefones públicos. Para pagar as contas, os moradores devem ir até a lotérica e fazer a retirada das faturas. As contas de água e luz são entregues em cada casa pela Sanepar e Copel.

A moradora que teve sua casa roubada, Cíntia Correia, também relata os problemas na prestação de serviços básicos. “Eles simplesmente jogaram aqui 2 mil famílias sem nenhuma estrutura, sem nenhum policial”.

Cíntia conta que ficou esperando a fatura da televisão a cabo chegar até o dia em que a televisão foi cortada. Então, ela descobriu que deveria buscar as faturas na lotérica, pois o correio não levaria.

Grande intervalo entre horários de ônibusFoto tirada de dentro de um ônibus, pela janela é possível ver casas do conjunto habitacional
O trajeto feito pela linha Costa Rica, do ponto final até o Terminal Uvaranas, leva cerca de meia hora

A linha de ônibus Costa Rica, que vai do Terminal Uvaranas até o Residencial, foi a última a ser criada pela prefeitura. No entanto, segundo os moradores, a linha não atende a grande demanda da região, que é vizinha de outros residenciais. O deslocamento do terminal até o ponto final é de aproximadamente meia hora.

O intervalo entre os horários de ônibus é de cerca de 40 minutos. Para a moradora Cíntia, esses intervalos são grandes demais para um residencial com mais de 1 mil casas. A alternativa encontrada pela família foi pagar uma van particular para levar os dois filhos até o Colégio Estadual Nossa Senhora da Glória, que fica no bairro Rio Verde. “Se não for de van teria que sair muito cedo e voltaria já à noite”.

Segundo a assessoria da Viação Campos Gerais a linha de ônibus Costa Rica foi criada em janeiro de 2016. Sobre os horários da linha não atenderem a demanda da população, a assessoria informou que a criação de linhas e de outros horários não é determinação da VCG, sendo o município o gestor de todo o sistema.

A prefeitura foi procurada pela equipe do Portal Comunitário, mas até o fechamento da matéria não deu resposta aos questionamentos apresentados sobre os problemas relatados pelos moradores.